O teto do Reino Maravilhoso



Uma montanha que exerce um fascíno terrível, um convite à posse. De lá, de onde se avista quase todo o Reino Maravilhoso, varanda de excelência sobre Rio Livre, tem-se uma dubia sensação se, no cume da montanha, a possuímos, se é ela que se apossou de nós.
E, livres, com esta incógnita eterna por desvendar, descemos, embrenhando-nos por um território sem dono, pois que a todos pertence.
O Larouco é um fascínio.

Armando Sena

Os folares


Não poderia haver Páscoa sem folares. Algo que nos alivia das agruras de um inverno que parece ainda não se ter feito primavera, pese embora o subir do mercúrio nos termómetros.
Resta-nos o terno (tenro) sabor desta iguaria que tem tantas versões, como os termos transmontanos.
Claro que os nossos são os melhores, Bô!, nem poderia ser de outra forma.

Armando Sena

Poética


Um singular projeto que é interrompido.
Pela singular beleza da mensagem, apesar de triste, fica aqui um apontamento em jeito de despedida que trouxe de uma Amiga.
Longa vida à Poética, um oásis transmontano.

"Como me pesa o ar que se obriga ao meu
peito onde não cabem arranha-céus nem
planícies mortas sempre que o mundo se
parte e eu fico na metade errada
do meu lugar.
(Virgínia do Carmo, in Relevos, Poética Edições, 2014)

Caros amigos da Poética,
é com inevitável tristeza que vos comunico o encerramento do nosso actual espaço em Macedo de Cavaleiros no final do corrente mês. Não é a Poética que morre, essa há-de viver. Mas morre um espaço que fiz nascer com tanta entrega e dedicação, onde recebi tantos amigos,tantos autores, tantos poetas; um lugar onde as minhas mãos apertaram tantas outras num ritual genuíno de cumplicidades e afectos. Tenho evitado que a tristeza pese, porque sempre fui pessoa de olhar em frente e reinventar caminhos, mas são tantas as coisas que me parecem ir mal, há tanto tempo, neste país desigual e assimétrico,e pergunto-me o que será deste interior que todos tanto elogiam mas que quase ninguém quer para si. E sim, isso angustia-me. Às vezes não sei onde irão as pessoas colocar os sonhos se nos levam o céu aos poucos.
Tentarei manter a sede da Poética-mãe, nesta terra que tanto amo. Trago o reino maravilhoso preso no peito com molas de apego docemente viciadas e felizes. E estou solidária com os que aqui continuam a lutar para que esta cidade e esta região se afirmem e os seus contornos não se esbatam e não desapareçam. E felizmente vão conseguindo. Com louvável esforço e muito trabalho. Mas é urgente que este país desperte para o desespero de quem quer ficar e não pode. É urgente reflectir sobre o estado de um país que não se respeita a si próprio como um todo. Que permite que parte de si morra aos poucos. E é preciso que a reflexão comece em cada pessoa em particular.
Não obstante a melancolia que espreita, encaro o encerramento deste ciclo como uma janela que se abre para novos desafios. Nenhum lamento vence a vontade. Principalmente quando a consciência de que tentamos e fizemos a nossa parte nos acompanha nas decisões. A Poética prossegue o seu caminho e o a metade certa do meu lugar será sempre aqui. Deixo a todos os que nos vêm acompanhando nesta caminhada uma sincera e sensibilizada palavra de gratidão e estima. Espero que continuem ao nosso lado. E que todos possamos ter oportunidade de crescer, ainda.

A Poética reabre em Abril num espaço mais pequeno, com as valências necessariamente reduzidas, no Edifício Translande, loja 41.
Bem hajam e até já, Virgínia do Carmo "


Armando Sena


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